20.5.21

(sem título)

meu coração é muito pequenininho
ao mesmo tempo meu coração é grande, muito grande
eu sou toda feita de pontos bonitos em renda e crochê
mas meu avesso tá uma bagunça que só

eu sinto tudo muito, muito
muito forte e muito bonito, muito feio e muito sofrido também
eu sinto tudo muito, mas raramente eu sinto muito
por tudo muito sentir

queria que fosse mais simples ser assim, mas num é
eu sou uma poeta meio pé-rapada, eu já cansei de rimar, sabe?
tô falando com você aqui feito prosa, tirando sarro
dessa estrofe besta

eu pego músicas e transformo meus sentimentos em versos
eu sinto tudo muito, muito
e pode até ser muito bonito sentir tudo muito
mas não é nada bonito sofrer

e como eu sofro!

17.5.21

será

às vezes eu me pergunto se você não tem medo
medo de que eu me esqueça
medo de que você se esqueça
de como era a gente se gostar

será que era essa a sua intenção desde o início?
eu me pergunto se você acha que vai resolver
(e até me pergunto se realmente resolve)
ou se é só mais uma forma de você se machucar

é uma droga.
mas droga mesmo é essa abstinência de você
uma abstinência que eu nem pude escolher ter
ou me apegar ao que eu tinha todo dia
(que era você)

eu sinto falta do seu cheiro
sinto falta do seu sorriso na tela do meu computador
sinto falta de lutar contra  desesperança do mundo junto
sinto falta dos latidos de cachorro ao fundo de cada chamada
que saudade de ouvir um “psiu”

eu sobrevivo
(porque é o que me resta
porque é o que dá pra fazer
porque a vida não me deixa parar)
mas às vezes dá vontade de pausar o mundo
e esperar você voltar

será que você ainda gosta de mim?
será que você ainda vai gostar?
será que você tá bem?
será que as coisas vão melhorar?

eu queria ter você aqui
eu queria poder te ajudar
nesses caminhos espinhosos da vida
eu sou feita de espinhos, meu nome já diz

eu já pensei que os poetas
tiravam vantagem da situação
mas descobri que não
a arte é a comida de quem sobrevive
a poesia é o respiro onde falta oxigênio

não cabe a mim te buscar
e você continua longe
e eu só posso continuar vivendo e esperar
e odiar o fato de que a vida continua
e você decidiu não estar aqui.

3.5.21

encolher

às vezes eu entendo completamente como é que você se sente — se encolhendo em torno de si mesmo, ocupando o mínimo de espaço e ao mesmo tempo o máximo, o paradoxo entre parecer ameaçador o suficiente para que ninguém te ameace e ser insignificante o suficiente para que ninguém te note. eu quero te dizer que eu entendo, eu entendo, eu já estive nesse mesmo lugar e eu já fui essa mesma pessoa — mas eu era uma pessoa diferente, apesar de estar no mesmo lugar. eu tento te alcançar e é como tentar falar com alguém que vai estar lá daqui a alguns anos, e não agora, e as suas palavras se perdem no ar enquanto você sabe que é essa a sua sina: ver as palavras perderem o significado, só para que ele (com sorte) volte ainda mais forte um, dois, quatro, seis anos depois.

eu quero te abraçar e resolver os seus problemas e curar suas feridas e te proteger do mundo feito uma casca, mas eu não posso e, mais importante, eu não consigo. você é sua própria pessoa e trilha o seu próprio caminho e, por mais que me lembre de mim mesma ou me faça pensar em tantas coisas que já passaram pela minha cabeça e provavelmente passam pela sua, você é você. uma pessoa diferente, no mesmo lugar, e em lugares diferentes ao mesmo tempo.

existe o momento em que tudo o que eu sinto é raiva, mas existe aquele pequeno instante, milagroso e doloroso, em que eu sei quem você é por baixo da casca e acima da mediocridade que você assume para que ninguém te ameace, insignificante como você finge ser. eu sei quem você é, e eu vou estar aqui quando você decidir que não precisa intimidar nem se encolher. eu não sou você, mas eu já estive aí, no mesmo lugar. talvez um dia você entenda que eu quero cuida de você, também.