volta e meia, eu penso em você.
penso em como eu sinto falta de como você era minha amiga, como era empolgante conversar com você, como tudo era poético... me pego invejando a sua capacidade de pegar palavras e transformar em maré, em onda, capacidade que eu me sinto perdendo a cada dia. mesmo que não seja verdade. mesmo que seja.
fico me perguntando quando foi que a curva começou, bem suave e então súbita, me fazendo sair da estrada mesmo sem querer. me pergunto se a curva sempre esteve lá e eu não percebi, ou se foi só uma curva súbita no meio do caminho — será que eu, querendo tanto uma salvação, segui a maré e mergulhei a cada onda, fingindo que era espontâneo?, fingindo que não havia perigo?, mesmo quando meus pés não alcançavam mais o chão?
acho que mais triste que perder o que a gente tinha foi perder você: perder a companhia de todo dia. era uma co-dependência e eu sei, mas fez falta, machucou lá dentro, me obrigou a sair de um casulo quando eu ainda era borboleta mole e de asas molhadas; quase não consegui. mentira. quase consegui. mentira. consegui.
eu sinto falta de ser um pouco mais como eu era entes de você me quebrar (antes de eu mesma me quebrar) (antes de nós me quebrarmos). eu sinto falta de quem você era antes de me quebrar. sinto falta do impacto das palavras, sinto falta da possibilidade de tudo melhorar. não era pra ser, eu sei; era mistura que fazia o olho arder, feito cortar cebola. era ansiedade constante. mas eu sinto falta.
me pergunto se você sabe que eu não consigo deixar a raiva ir embora. mas acho que é raiva porque eu confiei em você, eu senti falta de você, eu queria você na minha vida, eu queria sua amizade e suas palavras e sua presença. e você não deixou isso acontecer. e tudo bem. mas eu queria.
eu me pergunto se você sempre foi a pessoa que é hoje, e que por vezes eu não suporto.
ou se não era, e a sua falta te tornou assim aos meus olhos.
ou se passou a ser enquanto o castelo virava ruínas e a gente tacava fogo sem perceber.
eu me pergunto.