16.9.21

(não tô enlouquecendo)

eu queria dizer que tem algo errado e ter uma conversa e entender coisas e mudar coisas

mas eu não queria ser taxada de louca por mim mesma na esperança de que tudo volte ao normal

eu não sei se são os tempos ou se são os problemas ou se são as pessoas ou se somos nós

mas eu sinto falta de conversar e falar sobre sentimentos e de lidar com os problemas

ao invés de pedir desculpas e dizer que deve ser coisa da minha cabeça

enquanto eu me preocupo e o sentimento amarga

(eu não tô enlouquecendo)

13.9.21

faca tirada do peito

a dor que permanece é a dor da falta, eu acho. é por isso que é pior quando você retira a faca de um ferimento. de alguma forma, o que era bom vira dor, e a dor de certa maneira não é tão ruim até que deixe de te preencher. esquisito, não? quando a faca entra, você tem que se adaptar, tecido sendo empurrado e sangue envolvendo a lâmina, mas o corpo consegue manter tudo pra dentro; quando a faca sai, a dor é maior, o sangue escapa e o corpo começa a entrar em pânico. mesmo que seja dor, era melhor com a faca ali.

eu ainda estou tentando entender por que sinto tanta raiva de você. talvez porque o que a gente tinha era muito bom; tanto, tanto em comum. eu li um livro outro dia, e a protagonista me lembra você. me lembra quem você era, quem eu não sei se você ainda é. eu tento entender se o que eu sinto é raiva ou um tipo amargo de angústia, se é culpa do sentimento que foi interrompido.

faz tanto tempo que você tirou a faca do meu peito, e ele ainda não parou de sangrar.

27.8.21

a mulher que roubou a minha vida, marian keyes

eu não ACREDITO que o livro seguiu todo o caminho que seguiu pra ter um final ruim daqueles. corridíssimo. sem quase nenhum diálogo. a georgie que falou tudo pelos dois!!! pelo amor de deus!!! e não teve nenhum tipo de resolução sobre a relação da stella e de ryan. meu deus. e jeffrey. o grande babacão. NADA SE RESOLVEU EU NÃO ACREDITO AAAARRRGHHH. e o pior é que o livro é tão bom, aí chega no fim e é tudo corrido.


por quê, meu deus??

16.7.21

eu só sinto raiva e raiva e raiva. tá difícil fazer qualquer coisa porque pra cada lado que eu olho existe algo pra sentir raiva — uma imagem, uma palavra, uma pessoa. eu bem sei que essa raiva n~]ao é obre cada coisa que eu vejo e sim sobre coisas específica que eu não posso resolver, mas o fator não poder resolver pesa demais e eu não sei mais o que fazer a respeito. quero sumir e, ao mesmo tempo, quero quebrar o mundo em um milhão de pedacinhos.

ultimamente tenho tido todo tipo de pesadelos e também estou cansada disso. a cada noite tenho um sonho (afinal, são sonhos ou pesadelos? já não sei diferenciar) em que preciso resolver ou fazer outra vez alguma coisa, e nunca consigo. algo dá errado, sempre, sempre, e eu acordo me sentindo frustrada e cansada. quero jogar meu celular no chão e quebrar a tela até que ele exploda e pegue fogo e eu não precise mais usar um meio tão vil pra me comunicar, que me mantém à mercê de todas as pessoas o tempo todo. quero chorar e quero que minha mãe não me diga que eu preciso emagrecer, porque eu sei, eu sei, e já me sinto mal o suficiente sem ter outra pessoa me falando a respeito. não aguento mais olhar minha própria cara no espelho. a ansiedade vem me travando tanto que não consigo trabalhar ou comer e nem sei quais dias almocei ou não na última semana.

estou cansada. tão cansada que não sei mais se consigo descansar, porque até as coisas que eu gosto se tornaram detentoras do meu ódio — eu só sinto vontade de sumir. nem dormir é interessante mais, já que eu acordo. e eu não queria precisar acordar. eu não quero mais fazer exercícios ou estudar espanhol ou almejar um aumento no trabalho ou falar com meus amigos ou assistir filmes ou escrever alguma coisa. eu só não quero mais nada.

20.5.21

(sem título)

meu coração é muito pequenininho
ao mesmo tempo meu coração é grande, muito grande
eu sou toda feita de pontos bonitos em renda e crochê
mas meu avesso tá uma bagunça que só

eu sinto tudo muito, muito
muito forte e muito bonito, muito feio e muito sofrido também
eu sinto tudo muito, mas raramente eu sinto muito
por tudo muito sentir

queria que fosse mais simples ser assim, mas num é
eu sou uma poeta meio pé-rapada, eu já cansei de rimar, sabe?
tô falando com você aqui feito prosa, tirando sarro
dessa estrofe besta

eu pego músicas e transformo meus sentimentos em versos
eu sinto tudo muito, muito
e pode até ser muito bonito sentir tudo muito
mas não é nada bonito sofrer

e como eu sofro!

17.5.21

será

às vezes eu me pergunto se você não tem medo
medo de que eu me esqueça
medo de que você se esqueça
de como era a gente se gostar

será que era essa a sua intenção desde o início?
eu me pergunto se você acha que vai resolver
(e até me pergunto se realmente resolve)
ou se é só mais uma forma de você se machucar

é uma droga.
mas droga mesmo é essa abstinência de você
uma abstinência que eu nem pude escolher ter
ou me apegar ao que eu tinha todo dia
(que era você)

eu sinto falta do seu cheiro
sinto falta do seu sorriso na tela do meu computador
sinto falta de lutar contra  desesperança do mundo junto
sinto falta dos latidos de cachorro ao fundo de cada chamada
que saudade de ouvir um “psiu”

eu sobrevivo
(porque é o que me resta
porque é o que dá pra fazer
porque a vida não me deixa parar)
mas às vezes dá vontade de pausar o mundo
e esperar você voltar

será que você ainda gosta de mim?
será que você ainda vai gostar?
será que você tá bem?
será que as coisas vão melhorar?

eu queria ter você aqui
eu queria poder te ajudar
nesses caminhos espinhosos da vida
eu sou feita de espinhos, meu nome já diz

eu já pensei que os poetas
tiravam vantagem da situação
mas descobri que não
a arte é a comida de quem sobrevive
a poesia é o respiro onde falta oxigênio

não cabe a mim te buscar
e você continua longe
e eu só posso continuar vivendo e esperar
e odiar o fato de que a vida continua
e você decidiu não estar aqui.

3.5.21

encolher

às vezes eu entendo completamente como é que você se sente — se encolhendo em torno de si mesmo, ocupando o mínimo de espaço e ao mesmo tempo o máximo, o paradoxo entre parecer ameaçador o suficiente para que ninguém te ameace e ser insignificante o suficiente para que ninguém te note. eu quero te dizer que eu entendo, eu entendo, eu já estive nesse mesmo lugar e eu já fui essa mesma pessoa — mas eu era uma pessoa diferente, apesar de estar no mesmo lugar. eu tento te alcançar e é como tentar falar com alguém que vai estar lá daqui a alguns anos, e não agora, e as suas palavras se perdem no ar enquanto você sabe que é essa a sua sina: ver as palavras perderem o significado, só para que ele (com sorte) volte ainda mais forte um, dois, quatro, seis anos depois.

eu quero te abraçar e resolver os seus problemas e curar suas feridas e te proteger do mundo feito uma casca, mas eu não posso e, mais importante, eu não consigo. você é sua própria pessoa e trilha o seu próprio caminho e, por mais que me lembre de mim mesma ou me faça pensar em tantas coisas que já passaram pela minha cabeça e provavelmente passam pela sua, você é você. uma pessoa diferente, no mesmo lugar, e em lugares diferentes ao mesmo tempo.

existe o momento em que tudo o que eu sinto é raiva, mas existe aquele pequeno instante, milagroso e doloroso, em que eu sei quem você é por baixo da casca e acima da mediocridade que você assume para que ninguém te ameace, insignificante como você finge ser. eu sei quem você é, e eu vou estar aqui quando você decidir que não precisa intimidar nem se encolher. eu não sou você, mas eu já estive aí, no mesmo lugar. talvez um dia você entenda que eu quero cuida de você, também.

29.4.21

acontece

volta e meia, eu penso em você.

penso em como eu sinto falta de como você era minha amiga, como era empolgante conversar com você, como tudo era poético... me pego invejando a sua capacidade de pegar palavras e transformar em maré, em onda, capacidade que eu me sinto perdendo a cada dia. mesmo que não seja verdade. mesmo que seja.

fico me perguntando quando foi que a curva começou, bem suave e então súbita, me fazendo sair da estrada mesmo sem querer. me pergunto se a curva sempre esteve lá e eu não percebi, ou se foi só uma curva súbita no meio do caminho — será que eu, querendo tanto uma salvação, segui a maré e mergulhei a cada onda, fingindo que era espontâneo?, fingindo que não havia perigo?, mesmo quando meus pés não alcançavam mais o chão?

acho que mais triste que perder o que a gente tinha foi perder você: perder a companhia de todo dia. era uma co-dependência e eu sei, mas fez falta, machucou lá dentro, me obrigou a sair de um casulo quando eu ainda era borboleta mole e de asas molhadas; quase não consegui. mentira. quase consegui. mentira. consegui.

eu sinto falta de ser um pouco mais como eu era entes de você me quebrar (antes de eu mesma me quebrar) (antes de nós me quebrarmos). eu sinto falta de quem você era antes de me quebrar. sinto falta do impacto das palavras, sinto falta da possibilidade de tudo melhorar. não era pra ser, eu sei; era mistura que fazia o olho arder, feito cortar cebola. era ansiedade constante. mas eu sinto falta.

me pergunto se você sabe que eu não consigo deixar a raiva ir embora. mas acho que é raiva porque eu confiei em você, eu senti falta de você, eu queria você na minha vida, eu queria sua amizade e suas palavras e sua presença. e você não deixou isso acontecer. e tudo bem. mas eu queria.

eu me pergunto se você sempre foi a pessoa que é hoje, e que por vezes eu não suporto.

ou se não era, e a sua falta te tornou assim aos meus olhos.

ou se passou a ser enquanto o castelo virava ruínas e a gente tacava fogo sem perceber.

eu me pergunto.

23.4.21

constatações

 se eu pudesse, cairia morta nesse exato instante.

8.3.21

yoñlu

antigamente, eu costumava dizer que tinha medo de saber demais; que um dos meus medos mais profundos (e, talvez, irracionais) era descobrir algo tão grandioso, tão elemental, que tudo se tornasse insuportável e viver fosse um grande tormento.

recentemente, me ocorreu que saber pouco talvez seja a melhor fuga. saber muito sobre a humanidade talvez seja mesmo perigoso, e meu medo talvez não seja exatamente irracional.

23.1.21

a maldição do aniversário

às vezes eu queria poder falar abertamente sobre me sentir triste ou chateada, mas a internet não me parece o lugar apropriado pra isso — isso aqui é feito um oceano, vasto e instável demais pra se derramar as emoções. então, eu venho pra cá.

queria que não doesse tanto no meu coração, às vezes. não me acontece coisa grande, mas todo mundo sabe que corte de papel é dos que mais dói porque incomoda, arde, te lembra o tempo todo que está ali por intermédio da dor. queria ser menos suscetível — não mais forte, simplesmente menos suscetível; resistente ao que me afeta tão fácil. queria não enxergar nas coisas pequenas que me afetam todo o caminho futuro que se apoia nelas: a falta de compreensão, o amor definhando, a tristeza sufocante.

queria sentir só a felicidade e acabar o dia sem a sensação estranha que paira sobre mim de que eventualmente, inexoravelmente, algo vai dar errado. de que algo sempre dá errado.

por mais que eu seja amada, existirá sempre uma sombra que me acometa?

(a pergunta que sempre me faço, e me vejo repetidamente sem resposta)