8.9.19

deus (ii)

there's something about knowing that everything's fine
and i thank you.

(and by you, i mean everyone who has
love and
happiness and
compassion and
understanding
in their hearts.)

5.9.19

deus

there's something about praying everyday,
purely out of despair,
so god is compassionate
and let this being suffer no more
for hers is the happiness of the world
for hers is this land, hers are the birds
hers is the laughter of children
and she must cry no more
(i beg. oh, out of sheer despair
and if there is anyone there
wouldn't it be fair
to be fair?)

9.5.19

março/maio

às vezes eu só quero descansar
desacreditar no espelho
ver o sol se pôr vermelho
você chega e eu tenho sono, mas me preparo pra sair, porque você mal sabe que eu vou te esperar na rodoviária (você chega e eu tenho sono, mas preparo a cama e o café; o resto tá todo pronto, você vai tomar café comigo, e eu gosto de te ver na minha porta, sorrindo; você é linda). tudo já estava pronto no dia anterior (eu já ajeitei tudo o que precisava ser ajeitado, é só assar os pães de queijo e fazer o café), eu pulo pelo colchão na sala e tento não acordar ninguém, e vou pra rodoviária te encontrar (eu troco de roupa e tento acalmar meu coração, mas já é diferente; ele palpita de vontade de te ver, e não exatamente de nervosismo). eu te espero com o coração batendo forte porque, apesar de gostar de fazer surpresas, ele não se acostuma ao fato de encontrar você ("eu já tô aqui embaixo", você diz, e eu não consigo não sorrir; você sempre foi, você sempre vai ser você demais). você aparece e eu espero você se virar pra não assustar demais; você se assusta mesmo assim. eu dou risada, eu espero você voltar do banheiro e seguro a sua mão e pergunto como você tá, como foi a viagem, e meu coração tá na garganta e essa sensação nunca foi tão gostosa.
a gente vai numa padaria perto de onde vamos ficar, pra tomar café e jogar o meu jogo de eliminar a humanidade (a gente toma café e come pão de queijo, e não existe mais ninguém no mundo além de nós duas e o kim); eu te engano e pago a conta (com razão), você fica um pouco brava (também com razão, mas digamos que menos razão do que eu). já dá pra subir, e encontramos a eliane (finalmente assistimos o episódio que guardamos pra ver juntas, eu te levo pro quarto um bocadinho e surge a dúvida de se vamos conseguir sair da minha casa hoje), que é uma graça; ela sai, eu tranco a porta, você me encosta na parede e me beija (estar com você é muito bom, e eu preciso me esforçar pra convencer tanto a você quanto a mim de que temos que ir; não encontramos ninguém, mas a chave está na portaria, e subimos mesmo assim). o lugar é uma graça (o lugar é adorável), deixamos nossas coisas no quarto e resolvemos nos deitar um pouco, ao som de rádios ruins e vozes da mpb que você me conta, entre beijos, que nem gosta tanto assim (deixamos nossas coisas na sala e no quarto, você é uma gracinha e a vista é bonita; eu te levo pro quarto e me deito do seu lado, o mundo é bom e você do meu lado não é só o que eu posso querer, mas é, definitivamente, tudo o que eu quero). nós fazemos compras, eu corto o seu cabelo — leonardo dicaprio não te agrada tanto assim, mas ficamos nisso mesmo —, demoramos demais a sair, mas não tem problema. nando e ana e paulo e the umbrella academia e você me dando sobremesa na boca e eu nunca fui tão feliz, eu penso, e eu sou tão feliz e é real, porque você é real (eu acaricio seu cabelo e ele cresceu tanto e você é tão bonita e eu subo os dedos por entre os fios do seu cabelo e é tão bom sentir que eu te conheço; não por inteiro, nunca por inteiro, mas o suficiente. nunca por inteiro, porque sempre tem algo novo. o suficiente, porque você sorri, e é só disso o que eu preciso).
acho graça
que isso sempre foi assim
mas você me chama pro mundo
e me faz sair do fundo de onde eu tô
de novo
não é a primeira vez que eu durmo do seu lado, mas é melhor (eu descubro que é sempre melhor dormir do seu lado, todas as vezes em que isso acontece). nunca deixa de ser gostoso acordar e, antes de tudo, me dar conta de que você tá ali, do meu lado; sorrir, e beijar suas costas. sorrir, e te cobrir de novo. sorrir, e pensar que você é linda, e beijar suas costas mais uma vez, e outra (é como se eu nunca tivesse dormido longe de você: sua pele é perfeita, sua forma é perfeita, seu cabelo é perfeito, tudo em você é perfeito enquanto eu sorrio e beijo suas costas e te abraço enquanto você ainda dorme. tudo em você é perfeito — talvez não pra você, talvez nem mesmo por mundo, mas tudo em você sempre é perfeito pra mim). você acorda, me dá bom dia, e cochila mais um pouco (você acorda, e eu sempre sei que você cochila mais um pouco, eu rio baixinho e você sorri e não há ninguém mais sortudo no mundo que eu); seu rosto pela manhã é tão bonito, sabia? (o bonito de amar tanto alguém é poder ver essa pessoa com tanta ternura que você enxerga tudo o que dá pra enxergar; cada dobra, cada ruga, cada detalhe que faz dela, ela mesma)
eu me levanto e escovo os dentes, você se levanta depois e escova, também. "você nem gosta de rosa", você me contesta, e eu rio, porque gosto sim, não é minha culpa que eu goste tanto de preto, também. ficar na cama com você é bom, apesar da minha garganta estranha e da tosse que aparece de vez em quando (eu escovo os dentes, e você escova os dentes, e nós já sabemos que é difícil sair da cama e sair uma do lado da outra; cada vez se distancia um, dois meses da vez anterior, mas parece que a gente teve todo esse tempo pra se acostumar a estar perto, enquanto estava longe. estar com você é, pouco a pouco, como estar comigo mesma, e o pensamento me faz sorrir, e eu beijo sua mão, eu beijo sua bochecha, eu beijo sua boca e a ponta do seu nariz). eu faço almoço pra gente, hoje (a gente faz compras e é como se a gente fizesse isso todo dia — exceto pela parte em que não é, e essa é toda a beleza da coisa. estar com você é algo que eu sei fazer, mas é novo, ao mesmo tempo), assistimos um episódio de qualquer coisa comendo (o café da manhã é bom e nós assistimos o final de goblin, e algo sobre você conhecer algo de que eu gosto muito é bonito, assim como eu conhecer as coisas de que você gosta muito, também), em algum momento nós deixamos tudo na cozinha e eu não lembro se a louça foi lavada ou não, mas vamos parar no quarto outra vez. eu digo que te amo, e eu digo isso muitas vezes durante todo o tempo em que estamos juntas (nós terminamos, eu lavo a louça e sentamos no sofá — ou talvez tenhamos ido pro quarto, os detalhes me fogem —, você sabe cada vez mais quem eu sou, eu sei cada vez mais quem você é, e você é tão bonita. e você diz que eu sou tão bonita, e eu acredito), nós fazemos pipoca e você bebe algumas cervejas, eu faço uma caipirinha ruim e perco pra você, no buraco. nós vamos pra cama tarde, você descobre quem eu sou, eu descubro quem você é, e agora a gente vai dor-mir.
nada sei dessa tarde
se você não vem
sigo o sol na cidade
pra te procurar
(é fácil me deixar levar, com você; é fácil me despir de tudo, de inseguranças, é fácil criar coragem feito uma criança que quer mostrar que pode fazer alguma coisa e descobrir que pode mesmo. eu sou alguém com você que eu não sou a todo tempo, mas que ainda sou eu, de uma maneira bonita e crua, sem filtro, de um jeito meio sem jeito que eu tento não deixar você perceber. "eu tenho vergonha, mas você pode não perceber", eu digo, mas eu quero que você perceba. que eu tenho vergonha, que eu faço mesmo assim, que eu me deixo ser vulnerável com você e que eu tiro outra e outra e outra camada de contenção a cada vez, pra me jogar no seu abismo de uma vez só. o quarto, sim. a noite é linda, a varanda é linda, você vê as estrelas comigo e é como ser adolescente e fazer tudo só pela graça — no fim, a gente realmente faz só pela graça; é simples assim. porque é divertido, porque é bom, porque a gente gosta de rir e porque ficamos assistindo uma premiação antes disso tudo. é simples porque você fala comigo, porque eu faço com você, eu me seguro na beirada, sua perna falha e a gente ri. varandas nos desestabilizam, talvez seja isso, só. você volta comigo pro quarto, e essa noite dura pra sempre, até a gente dormir de puro cansaço só pra acordar duas horas e pouco depois, porque nem mesmo o meu corpo quer me deixar perder tempo sem olhar pra você)
eu bem sei onde tudo vai parar
já não tenho medo do mundo
sou filho da eternidade
(ninguém planeja nada; você me diz, depois, que nem imaginava que isso pudesse acontecer. eu te conto que imaginava, sim, e por dentro fico rindo da graça de ideias opostas em sentimentos conflitantes entre si, mas iguais. suas mãos são muito bonitas, e o seu toque na minha pele é bom e natural; o quarto é escuro, mas eu enxergo você. enxergo pelo pouco de luz que entra pela fresta da cortina, enxergo pela minha pele que encosta na sua, e eu te amo. me pergunto se você sabe o quanto eu te amo, do jeito que você é, de todos os jeitos que você é; que eu amo sua pele, suas costas, suas mãos, sua barriga, seus braços, suas coxas, seus pés; que eu amo seu cabelo e sua boca e o jeito como seu nariz fica engraçadinho quando você sorri e como sua boca fica quando você sorri de canto e como tudo no seu rosto se junta pra formar algo que é só seu e que, ali no escuro, é só meu, também. meu corpo se move em direção ao seu — é assim em casa, na rua, em pé, deitada —, eu te beijo e você me beija e me pergunta se tudo bem. "tudo", eu te respondo. tudo bem, sim. eu entendo muita coisa, ali, muita coisa que me disseram e muita coisa que eu já me disse, muita coisa que eu tentei entender sobre algo que é seu e só seu, e você pode escolher dar um pouco a outras pessoas, e elas podem aceitar e cuidar daquilo pra você. eu entendi que já era seu há muito tempo. eu entendi que você sempre cuidou, mesmo antes que eu soubesse. "eu amo você", eu digo, baixinho. "eu amo você", você me responde. eu sei. ah, meu amor, eu sei, sim. a gente dorme, e eu estou em paz.)
trago nesses pés o vento
pra te carregar daqui
mas você sorri desse jeito
e eu, que já perdi a hora e o lugar,
aceito
últimos dias trazem algo que eu não gosto (últimos dias trazem um nó na garganta e eu tento não pensar nele, mesmo que esteja ali, esperando, quieto), mas permanecemos aqui. eu dormi feito uma pedra, eu acordei beijando suas costas — talvez essa seja meio que a minha coisa —, você acorda e me abraça e eu te amo demais, ali, antes dali, e depois dali (o cansaço é tão grande, mas, de alguma forma, nós nos levantamos; a luz acaba e decidimos ir ao cinema. eu estava preocupada antes, dias antes, semanas antes, mas agora nenhum imprevisto consegue me tirar do bom humor. mais imprevistos se provam insistentes, eu te abraço e fica tudo bem — você é insistente demais, eu preciso pontuar). o nó na minha garganta insiste, se agrava, a tosse insiste e se agrava, você cuida de mim. você sempre cuida de mim, perto ou longe, com carinho ou palavras. você sempre cuidou de mim, fosse numa noite regada a choro ou a cerveja e bebida ruim. você. (a luz acaba no cinema, também, e eu acho graça; volta depois de uns vinte minutos, e eu consigo te deixar prestar atenção no filme, até; o sono me assola e eu quase durmo em algumas partes, mas tudo bem. você chora, eu rio porque é uma graça, e enxugo suas lágrimas, e faço graça por você chorar em filme de lutinha enquanto nós duas tomamos sorvete direto do pote com duas colheres de sopa. eu faço graça com tudo, e eu me pergunto se você sabe que é porque eu não consigo te deixar em paz)
o dia é melancólico (o dia é melancólico), você chora antes do fim do dia e eu faço piada, engolindo meu choro e tentando te ajudar a se recompor (você chora antes do fim do dia e eu soluço, te abraçando e cantando com você, e pra você, e dizendo que eu te amo enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto e o meu corpo balança de agonia e o seu também, mas tudo bem, amor, tudo bem porque você está comigo, tudo bem porque eu estou nos seus braços e tudo bem porque é essa a razão pela qual a gente chora; porque não se sabe quando vai haver de novo uma brecha no espaço-tempo. eu amo você, e você sabe. você me ama, e eu sei. o tim maia já dizia: eu amo você, menina).
nada sei nessa tarde
se você não vem
sigo o sol na cidade
a te procurar
a respiração é funda quando é perto de você ir; a carta do diabo te diz pra ficar, eu penso que queria que você ficasse, e você fica — um poucp. nunca é o suficiente, mas tem que ser (a despedida é um pouco mais comedida. depois de chorar, a gente ri, e então chora outra vez. você toma um banho e eu me sento na cama, tremendo, pensando em como viver, mais uma vez, sem você). você se arruma e eu faço um lanche de queijo com orégano enquanto o uber se recusa a chegar, e o tempo corre feito louco, e o desespero pega a gente de surpresa (nós já sabemos o suficiente pra deixar a última hora planejada, eu te abraço e concordo em só te deixar lá embaixo, o tempo sobra). meia hora: nada de uber. vinte e cinco minutos: chama um táxi. vinte minutos: a caminho. quinze minutos: indo pra rodoviária. de algum jeito o tempo se multiplica, sobra um pouco, eu escondo uma carta no bolso da sua mochila e te conto ali, na rodoviária, você me abraça forte e vai — o tempo se dobra pra dar tudo certo, mas a gente sempre soube que o tempo se dobrava pra nós (não tem carta escondida ou presente secreto, porque pra você, agora, eu sou um livro aberto, e não existe tempo pra mistério quando eu só quero você. eu descubro que não sei me sustentar sem você perto de mim; eu sento um pouco, tremendo, a cabeça dói, eu não quero chorar. como é falar com você por mensagem? eu não lembro. eu não me lembro de como é não ter sua pele contra a minha e sussurrar no seu ouvido e sentir seu corpo reagir. eu me dou conta de como a gente se contenta com pouco, tão pouco).
você me liga enquanto eu volto pra casa (você não me liga, dessa vez), a garganta aperta e eu fico mais doente do que estava antes (minha garganta resolve fazer um revival e começa a infeccionar logo que você vai embora). eu me deito na cama, tentando descobrir como viver a vida no vazio que fica, sem você (eu me sento e escrevo sobre como é bom amar você, confiar em você, me entregar nas suas mãos; meus olhos fecham de sono e cansaço, mas eu escrevo. você deixa um único halls de uva verde em cima do meu caderno, e aquilo me faz querer chorar. quando eu durmo, nessa noite, eu não me lembro se chorei ou não, mas me pergunto como eu aguentei a sensação em todas as outras vezes em que você foi embora: a sensação de que algo falta, a ausência do seu abraço em mim. eu me dou conta, sem surpresa, de que nunca aguentei).
nada de meu nesse lugar
a cidade vai pensar
que nada aconteceu em vão
você vai me ligar então mais uma vez

6.4.19

constatação sobre o presente com base no passado

(e eu penso, com lágrimas nos olhos,
como é bom ter você e ser leve e tranquilo
e segurar mãos e falar de coisas
e fazer piadas e saber que tudo tá sempre bem,
pra variar)

06.04.19

já faz um tempo que eu preciso escrever pra você, mas eu sempre adio — você me conhece, é muito mais fácil arranjar mil razões pra procrastinar do que fazer o que eu realmente preciso fazer. agora mesmo, inclusive, estou procrastinando, porque preciso estudar (e preciso mesmo, porque esse trabalho de história pra segunda não vai se fazer sozinho, e deus me livre de fazer amanhã).
ok, talvez eu não diga exatamente procrastinando, porque eu já procrastinei a sua carta por tempo demais, né. chegamos a esse ponto. hierarquia da procrastinação.
primeiro, eu queria dizer que tá tudo bem, na medida do possível. não onde eu queria estar, porque a gente não fazia ideia de como ia ser complicado depois de um certo momento na vida, mas estamos levando bem, se você olhar o panorama geral: formada na faculdade (dois diplomas!), trabalhei com amigos, tô namorando. inclusive, muito feliz. e eu sinto que vou receber uma carta dizendo que preciso parar de evitar ir ao médico e me cuidar melhor, em algum momento, mas né: fazer o quê. tô tentando. segundo, tem algumas coisas que deram meio errado: depressão (disso você já tinha uma noção), ansiedade (disso também), nada de emprego e nada de conseguir colocar a cabeça no lugar pra realmente fazer algo dar certo. eu tenho certeza de que você mandaria logo um "mas por que você não faz logo as coisas e resolve sua vida?" se me visse nesse estado de inércia criativa e de vontade, e eu queria te explicar que eu quero, mas não consigo (o que é muito mais complexo do que eu achei que seria). estou me esforçando pra conseguir, porque eu não quero que isso atrapalhe coisas importantes pra mim, tipo os planos de sair da casa dos meus pais, ou o rumo do meu namoro. sério, tem tanta coisa em jogo a todo momento, você não quer nem começar a saber.
isso é um panorama bem rápido de tudo, porque uma coisa que tem estado na minha cabeça e que eu preciso falar com você sobre é a verdadeira razão de eu ter escrito pra você hoje.
lembra de quando a gente olhava praquilo que o papai queria que a gente fizesse da vida e pensava que era uma ideia terrível? eu lembro de pensar que não daria conta — a gente sempre foi muito distraída, e apesar de se sair bem em algumas matérias no ensino médio e na faculdade, sei lá. eu lembro que só o pensamento de cursar algo que envolvia tanta hierarquia e que nos obrigaria a enxergar de perto tanta coisa que a gente detestava (e que você com certeza ainda detesta) era o suficiente pra gente pensar que não daria conta. eu não lembro se você chegou a pensar que morreria, e eu acho que não, mas bom. vamos combinar que entrar no curso que a gente mais detestava levaria a uma queda de notas, e a gente sabe o que a mera ideia de repetir de ano ou reprovar no vestibular fez com a gente.
(eu fico me perguntando se você escolheu o que escolheu porque realmente queria ou porque só queria fugir da possibilidade de precisar fazer o pior, algumas vezes. não tenho mais como saber — espero que você se alivie aí pensando que queria isso mesmo —, mas muita coisa boa aconteceu por a gente ter cursado o que cursou, então tudo bem, tá? se esforça, vai dar tudo certo)
enfim. eu vim aqui te trazer notícias do futuro e contar que, ao contrário do que a gente achou que seria, não foi o fim do mundo. depois de anos de menosprezo e insistência, o papai conseguiu que eu finalmente cedesse (eu estava sem trabalhar, sem conseguir produzir qualquer coisa que fosse, e lidando com um ambiente muito difícil — mais difícil do que tá aí, pra você —, e cheguei à conclusão de que era melhor acatar isso e me colocar em movimento de novo do que cair numa crise depressiva forte outra vez), e cá estamos nós.
pois é. eu sei. eu também fiquei em choque, e fiquei mal, e a amanda ficou preocupada e tentou me ajudar a entender seus sentimentos em relação a isso, o que ajudou bastante (quando você conhecer a amanda, vai entender). e o que eu quero te dizer não é que é maravilhoso, mas sim que a gente conseguiu. a gente tem experiência, e depois de um tempão na faculdade e no técnico, a gente dá conta de bastante coisa. e eu não diria que é só uma questão de saber fazer as coisas — a gente é forte. já faz tanto tempo desde a última vez em que eu fiquei daquele jeito, sabe? é importante saber que a gente precisa respirar fundo e tentar ser o nosso melhor sem se apoiar em ninguém, mas é tão bom saber que é mais fácil com alguém, também, e com pessoas do nosso lado pra ouvir e rir e tentar ajudar. eu queria dizer que você não faz ideia do que você vai aguentar, e que você passou por tudo isso, mesmo achando que não conseguiria a todo momento, mesmo achando que tudo aquilo acontecendo dentro da sua cabeça nunca ia te deixar em paz, a não ser que.
você conseguiu, mesmo com esse a não ser que te assombrando a cada hora do seu dia. você lembra de quando a gente acordava no ensino fundamental e olhava pra lista de amizades que a gente tinha, na parte de baixo da estante? você lembra do ensino médio e da faculdade, e de acordar e pensar em todas as pessoas que iam fazer o nosso dia valer a pena, e só por isso conseguir fazer tudo o que a gente tinha que fazer? porque às vezes eu paro pra me lembrar, e cara, você sempre foi forte pra caramba. eu só consigo torcer pra ser forte, também, porque eu nunca sou você, por mais que eu queira.
(no mínimo, eu tento ser forte. tá tudo bem até agora na faculdade, e eu tô tentando manter tudo em dia. o que machuca mais são as pessoas, e não o que a gente achou que seria — hierarquias e obrigações. não é esquisito? talvez seja muito cedo pra você entender isso completamente)
bom, era isso. eu tenho muito mais pra te dizer, óbvio — eu teria linhas e linhas pra te contar sobre a sua vida amorosa no momento, e acho que você iria achar ótimo, e você é vegetariana agora, cê acredita? pois é. nem eu acredito. e você gosta de ABÓBORA. caraca. você é amiga de pessoas fantásticas e se sente menos parte de grupos do que gostaria e mais sozinha do que esperaria, mas consegue balancear tudo mais ou menos bem. e, sério, eu vou dar um jeito na coisa do emprego. e na de marcar um médico, também.
lembra de não se isolar, lembra de se permitir momentos com as pessoas que você gosta e de se abrir pra coisas novas, tá? eu sei que às vezes você tá muito mal, mas vai te fazer bem ver todo mundo. e conversar sobre. e tudo bem chorar, você vai chorar um monte, e eu sinto falta de chorar tão fácil. não deixa a vida te endurecer, tá bom? chora lendo "meu pé de laranja lima" no ônibus, chora assistindo "mary & max", gosta do que você achar legal e tenta entender tudo melhor — não é porque você não consegue montar um bom argumento que suas opiniões não são válidas, e você ainda vai conseguir. tudo bem se sentir acuada, não é sua culpa. suas decisões sobre o seu bem-estar, aquelas que levam em consideração você se sentir bem e não você ser um ser humano rentável, são muito boas; se apegue a elas. e, ah, a gente ainda usa a coisa do "trate as pessoas como você gostaria de ser tratado", e é bom. conheça pessoas, se abra com pessoas, tudo bem falar demais porque ninguém acha isso além de você (ou é o que me dizem, apesar de eu sempre achar que falo demais. tenta não duvidar tanto que as pessoas gostem de você e de te ouvir, também). aproveite o máximo que você conseguir e seja sincera, mesmo que doa, mesmo que pessoas vão embora — nada vale mais do que saber que as pessoas te amam por você ser quem é. pelo amor de deus, come direito, continua a escrever, e não acredita tanto em tudo o que te dizem. você não precisa ser o que outra pessoa quer que você seja pra que ela te ame. aproveita os momentos de se sentir extremamente empolgada, porque eles ficam mais raros, mas nunca deixam de ser divertidos. para de tentar se encaixar, deixa que as pessoas se encaixem em você. elas gostam de você porque você é legal.
e lembra que eu te amo muito, sempre, em qualquer lugar que você esteja, em qualquer momento que você esteja. eu espero que, quando chegar aqui, você goste de mim, também.
de você,
arantxa

25.3.19

amandinha não

se eu fosse contar pra outra pessoa, diria que ela é grande, quando se vê.
(foi a primeira coisa que ela me disse, às vésperas, quando uma ainda não sabia a reação da outra, quando as duas tinham medo de não ser o que se esperava. mas o que, exatamente, se esperava?, e como é que se devia ser, se não fosse exatamente do jeito que era?, mas isso não é sobre mim, então pulemos esse questionamento)
primeiro, porque realmente, ela é grande. é maior do que eu, certamente, por mais que eu implique, brincando, que nem é tanto assim — mas é um pouco que dá a sensação de muito, por algum motivo; vai ver, quando se é uma pessoa como ela, a gente só parece maior, mesmo. imponente.
segundo, porque eu senti que ela me disse isso na esperança de me avisar sobre algo, como quando a gente vai almoçar na casa de alguém e dá um jeito de estrategicamente enfiar no meio de uma conversa, dois dias antes, que não come alguma coisa. "ah, sabe como é, né, ontem eu mordi uma cebola sem querer...", e a outra pessoa vai pensar: putz, cebola. não posso fazer nada com cebola no almoço. eu não tenho como saber — muita coisa a gente não tem como saber exatamente, é tudo uma enorme adivinhação disso e daquilo —, mas foi o que me pareceu, porque é algo que eu faço muito. fazia? faço? bom, o ponto é que eu conheço o jeito de quem faz isso, também, e quando eu gosto de alguém, tenho essa mania de enfiar assuntos sensíveis no meio das conversas.
"quem é que quer se sentir questionado na intenção alheia de se sentir bem depois?", você me pergunta. eu não sei. acho que não é algo que as pessoas esperam (certamente não é algo que elas querem), mas é bom de fazer. tira um pouco a coisa do eixo errado, e coloca no certo. se ela me disse aquilo de um jeito depreciativo (ou levemente depreciativo) (ou mesmo não-depreciativo, vai saber), eu vou usar de uma maneira totalmente contrária, e vai se tornar algo bom. é assim que eu penso.
enfim. enfim. grande. eu me perco demais, pensando sobre isso; me pergunto se também tem algo a ver com ela, ou se é só uma coincidência. um pouco dos dois, talvez. ela é grande porque é alta, é grande porque é larga, e é essa a imagem que vem imediatamente na minha cabeça quando eu penso nela: grande. como ela apontou. aponta, na verdade — e nem todas as vezes de uma forma que me soa estranha, eu confesso. o que pode ser só coisa da minha cabeça, mas de todo jeito é válido. é válido? ah, vai saber.
ela é grande por outras coisas, também, coisas sobre as quais eu sempre penso. grande porque o abraço dela é o melhor dentro do qual eu já pude me perder. grande porque o sorriso dela é tão bonito que eu nem sei mais onde eu tô. grande porque o som da risada dela me dá vontade de rir e eu nem preciso ter entendido a piada. e se dá pra se perder, se eu não sei onde eu tô, se faz rir até doer a barriga, é grande, né? é esse o conceito, eu diria. falando de sorriso e risada, eu penso em como o rosto dela é enorme, de olhos fechados — dá pra traçar todas as linhas que um rosto precisa ter, tem espaço pra guardar muita coisa, ali. um segredo. um beijo. vários beijos. uma lembrança, pra quando for preciso. uma pinta, só pra não perder o costume. uma cicatriz pra lembrar da infância. um nariz pra dar risada quando se aperta. bochechas macias, pra quando for preciso um cochilo. sobrancelhas engraçadas porque não são como nenhuma outra que eu tenha visto, e dão muito certo. uma boca bonita de sentir sorrir. viu? um monte de coisas. se cabe um monte de coisas, por definição, é grande.
e aí eu posso descer. eu não diria ombros largos (o que me atrapalha um pouco nesse lance de "grande", se você quer saber), mas na proporção, você poderia dizer que é grande. dá pra descansar ali, depois de chorar um bocado. dá pra buscar um tanto de alento. dá pra se sentir em casa — não dá pra negar que a sensação de estar em casa é algo grande. e não só consolo, dá pra se sentir bem genuinamente ali, sem nenhum contexto anterior; um dia bom, quando eu chego em casa e a gente deita na cama, eu descanso a cabeça no ombro dela, vira um dia melhor. é grande porque dá pra contar uma história, ali, de um dia, dois, às vezes até três. uma história temporária, mas dá. uma história contada no calor do momento e que assusta depois, mas que faz dar risada. cabe sentimento demais, é grande. eu diria grande porque cabe um cardume de sardinhas ali, e é mar aberto, e mar aberto é grande. enorme.
ela é macia. pessoas macias têm algo que não dá pra explicar, mas que as torna mais alguma coisa do que as outras. não mais no sentido de acima, só mais no sentido de... mais. mais confortáveis, mais atrativas — como quando você precisa levantar, mas a cama é boa demais, e te abraça de um jeito que não dá pra soltar. irrestistível, eu diria. eu diria que tem algo sobre estruturas quando você olha pra ela (- gal costa.mp3), algo sobre a curva das costelas e sobre como ela parece... não uma casa, não um prédio (ela é fácil, então definitivamente não um edifício), mas algo ligado a arquitetura: planejamento e encaixes e curvas, e sensações e algo sobre contar histórias, algo sobre familiaridade e se sentir feliz. não uma casa, não um prédio, mais. imponente, mas gentil. grandioso.
e talvez também grande como em grandes risadas e grandes sustos e fechar os olhos e caminhar de mãos dadas, grande como em uma cidade grande, grande como o céu aberto numa cidade do interior, grande como o som num festival de música e grande como um estacionamento e como o vento batendo no seu rosto quando se anda de bicicleta. como em sentimentos grandiosos — a gente não precisa ser sempre tão literal. ela não é tão literal; talvez eu devesse incluir isso na lista.
ela é grande, mas às vezes não.
às vezes, dá pra trazer pra perto e guardar perto do peito, como se fosse um passarinho. às vezes dá pra derrubar só com um sopro, só com um toque, só com uma palavra — o que não é grande, exatamente, mas não deixa de ser. às vezes é uma risada que mostra que ela não é intimidadora, só grande. às vezes é só que ela não é exatamente inha, mas não deixa de ser, um pouco. às vezes ela sorri e você entende que nada é exatamente o que você espera que seja, porque tudo se confunde e ela é enorme, mas você sente que vai explodir, e é tudo demais, e é aí que tá. ela chega e você põe os olhos nela e ela é grande, nunca vai deixar de ser.
(só que em mais maneiras do que ela consegue perceber, só isso)