21.11.18

14.nov — 18.nov

quatorze
nervosa, muito nervosa. eu sinto que vou vomitar e você se sobressalta a cada vez que a porta abre (supostamente, eu repito na minha cabeça, porque eu não estava lá e isso é só uma memória agregada de coisas que eu sei). tem outra menina que está sentada perto do desembarque, uma menina que eu também preciso encontrar, mas o caminho é longo e eu não te encontro em lugar nenhum. cadê? cadê a boneca, também? eu penso: é bom, que dá tempo de me preparar. eu penso: que mané tempo? eu sei que não vou estar pronta, nem que demore mil anos.

você surge e é como um susto — não, é um susto, quase como se tivesse se materializado na minha frente. é sério, eu não faço a menor ideia de como você estava ali, e de repente, você estava, e você me abraçou, e eu me lembrei das suas palavras: uma pessoa enorme e cheia de vergonha. e eu entendi, enquanto você me abraçava; você era mesmo enorme. você podia me fazer sumir dentro de você, se quisesse. você ainda pode, mas eu não sabia, naquele momento.

você me dá um brinquedo (será que é nessa hora?), eu te encaro e seguro sua mão, porque ainda tem outra menina que eu preciso encontrar. eu bato os olhos nessa menina e eu penso em como eu tenho medo de nunca saber o que dizer, medo de que não gostem de mim, medo de descobrir que eu sou algo que não queria ser e que ninguém quer por perto. essa outra menina não para de falar por um segundo, e eu sorrio; é bom estar ali. é bom estar com ela, e é bom estar com você.

(a gente anda de um lado pro outro e você me abraça de novo e meu coração bate forte e eu quero segurar a sua mão, e a gente para e você não fala muito e não tem problema, eu te dou todo o tempo do mundo pra descobrir como você se sente, você nunca vai precisar correr pra me encontrar. só se você quiser.)


quinze
prelúdio: você começa a ser você de madrugada, depois que eu ouço uma coisa que você fez enquanto me encontro num surto de falta de sono motivado pela mais pura alergia. eu mando mensagens demais, você acorda com sono demais; você fala comigo, você é ótima. antes, eu briguei com você por dizer coisas ruins sobre você mesma (eu me pergunto, naquele momento, se você vai me perdoar por brigar sempre que essa for a pauta), porque em momentos assim eu enxergo você em todo o seu sorriso (que é bonito, tão bonito).

você continua a ser você sob um sol escaldante de sabe-se lá quantos graus, enquanto eu estou sentada com meus amigos na grama. você é tão bonita, eu concluo de novo enquanto a gente se levanta, tão bonita e tão gentil e eu quero que você goste de mim; eu sei que você disse que gosta, mas eu tenho medo, eu sempre tenho medo (é o meu segredo, aquele que ninguém sabe), e os shows começam. a partir daí é tudo muito confuso, mas eu sei que você está sempre perto de mim e que eu te procuro a cada instante, e eu tento não pensar muito se isso é ou não chato e se eu estou ou não fazendo a coisa errada. chove e você não coloca uma capa de chuva e eu não coloco uma capa de chuva, e por dentro eu dou risada pensando que a gente é muito do contra, a gente é a gente demais. toca uma música nossa, tocam duas e talvez até três, para de chover e volta a ter sol, e eu sinto falta da chuva. passa mais um show, e é o nosso show (uma imagem de um jovem com os dizeres "guess who got you a ticket to Death Cab tonight?"). eu lembro do meu coração e do nó na minha garganta, eu lembro principalmente de segurar a sua mão e de estar encharcada e de nem ligar tanto assim, porque você me abraçou e estava tudo bem. i dreamt we spoke again, e tá tudo bem. summer years. avança e avança e em title and registration eu me pergunto se é muito boba a minha ideia de te beijar numa música bonita; crooked teeth e eu pondero se ela é o suficiente. o baixista dá um violão pro ben gibbard, meu estômago se repuxa e eu sei que é i will follow you into the dark, e é a minha chance; todo o meu corpo trava, eu sei que só tenho uma chance, e eu me lembro de "você prefere que a outra pessoa tome as iniciativas?", e eu penso que é isso, eu não posso mais ser assim. eu te beijo em "in the blackest of roooooooms" e você esconde a cabeça no meu ombro e eu quero rir e eu quero rodopiar e eu tenho calafrios; você é uma montanha. você é um gigante. você canta no meu ouvido e você é mil passarinhos e você é o som da cidade, também — meu deus, como eu amo a sua voz. como eu amo você, eu me dou conta, de novo, empurrando o sentimento pro fundo porque não é hora de pensar nisso. você é um cais. você é o mar. eu seguro você perto de mim, eu lido com problemas, e você continua do meu lado; a gente canta tu tu tu tu tururu tu tu e eu rio e tudo é bom. eu pisco pra você, você me mostra a língua. a gente bate palmas, meu óculos some, tudo bem, eu ia dar ele pra você. meu coração some, tudo bem. ele é seu, eu sei que você vai tomar conta.


dezesseis
eu vou ao seu encontro outra vez e você surge de surpresa outra vez; eu me pergunto se vai ser sempre assim. eu seguro sua mão; acho que é o primeiro dia em que nós temos programas que não são um primeiro encontro ou um show da nossa banda favorita, e tudo corre tão bem que eu mal posso acreditar (posso sim). nesse dia você é brisa e meu coração é furacão, a gente ri e eu encontro gente querida e você me conta coisas e eu dou um pouco mais de risada; a gente ouve a minha playlist, e você diz que está realizando um sonho. eu me pergunto se você sabe que eu não respondo sempre porque tenho vergonha e porque minha mandíbula fica travada num sorriso permanente quando eu estou com você, mas eu respondo mesmo assim: desajeitada, esquisita, mas respondo. eu penso que amo você, e que não tenho mais pra onde fugir. eu penso também que não ligo. eu te beijo perto de várias plantas e a boneca faz graça e você sente vergonha e eu rio; você é perfeita. suas mãos e seu nariz e suas orelhas e seu cabelo e sua boca e seus olhos e até a sua mochila roxa; eu te abraço e digo pra você respirar. "não consigo", você diz. deixa de ser boba, eu digo, você consegue. você me faz rir, eu te faço rir. eu não ligo de passar a vida inteira com você, nesses momentos. eu lembro de você fazendo carinho no meu braço. enorme, um coração enorme, sessenta dias apaixonado, cafuné e graça; eu quero sumir dentro de você pra não ir embora.


dezessete
seis horas da manhã que na verdade são seis e meia, que na verdade são cinco e meia que na verdade são quinze pras cinco. esse dia começa com você antes de encontrar você, e eu penso que é cada vez maior a vontade de ficar perto de você, e cada vez menos tempo (eu empurro pro fundo da mente, não vamos pensar nisso agora), e você chega e você é tão bonita (tá ficando chato, eu penso, mas não dá pra não pensar) e eu seguro a sua mão. a gente passa por várias ruas; você me fala da cidade e de você e eu te conto de mim também. você coloca o óculos (eu nunca vou parar de dizer o quanto você fica bonita de óculos), você me dá um fone e a gente escuta a sua playlist. eu me sinto em paz e nesse dia você é areia quente da praia, aconchego, coberta. "vocês são um casal, né?" "claro" e meu sorriso acende de você dizendo que falou toda convicta e eu fiquei quieta, porque nem me dá vontade de implicar; claro. claro que a gente é um casal. e é tão natural que nem precisou ser combinado, só aconteceu. café e gatos e conversas e sua mão na minha e conversas e conversas e conversas. você agora é o sol, eu me preocupo em te atrasar, e você diz que tudo bem; eu nunca sei, mas acredito em você. metrôs e mais metrôs, eu poderia ficar eras dentro do transporte público com você e talvez seja assim que se constrói um namoro da cidade grande: meios. in-betweens. um abraço e tchau e eu nunca quero que você vá embora; tudo o que eu quero falar é de você, porque eu preciso me lembrar. eu preciso me lembrar de cada segundo.

depois, olááááá, você — não tem como não sorrir quando você fala, e você é melhor que barulho de mar, é barulho de parque de diversões, aquela sensação gostosa de diversão misturada a gritos e tons de voz diferentes. eu te espero e é tão pouco tempo e todo mundo te ama, viu? eu disse que todo mundo te ama. você é engraçada bêbada, eu dou risada e te dou um beijo; dessa vez você deixa, e é tão bom, e hoje você é o bonito dos fogos de ano-novo e você é calafrio de tudo que é bom, você é o céu da madrugada e eu finalmente entendo que você é você, não tem como não ser, não tem como não rir, não tem nada que me mantenha longe de você. hoje você é minha e eu sou sua e ops, o tempo passou e ops, passou mais um pouco, e quem liga pra dormir pouco se é pra passar mais tempo com você? é tudo tão confortável. hoje, você é minha própria pele.


dezoito
hoje você e eu somos sono e confusão e tristeza morna; você chega e você é bonita demais e eu quero chorar, mas não posso chorar. não posso te beijar. não posso gastar cinco horas como se fossem quarenta minutos; hoje você é lençol ao vento, meio fraco e triste e acenando adeus. hoje eu sou uma confusão dentro de mim, e não sei como vou viver longe de você. hoje eu respiro fundo e seguro sua mão e não quero soltar, eu não quero mais soltar, nunca mais. você me dá um beijo, você me dá dois, eu abraço você. nunca foi tão difícil dar as costas e ir embora.

17.6.18

and you are me and we are all together

eu estava aqui, pensando no que escrever, quando eu me lembrei de um texto que tinha escrito no tiopando em 2010 (meu deus, só aí já vão aí oito anos que a gente se conhece). foi no começo de junho, o que eu agora acho engraçado, e eu falava, sem nenhum pretexto específico, do quanto eu gostava de você.

sabe, uma das coisas que sempre me ocupam a mente é o modo como eu conheci as pessoas. há algo de mágico aí, para mim; eu tento entender, depois de algum tempo, como alguém começou em um espaço tão pequeno no meu coração e se tornou tão grande.

quando eu te conheci pela primeira vez, você ainda nem era andré — era taran, naquele tempo em que podia ser perigoso dar seu nome "de verdade" para pessoas que você não sabia exatamente quem eram ou onde moravam. eu não me lembro como nós começamos a conversar tanto, ou quando eu te adicionei, mas me lembro de ter gostado de você desde o princípio; do modo como você falava, escrevia, se comportava em meio ao grupo. você sempre foi uma pessoa querida, e isso era claro para mim por tudo o que as pessoas ali falavam sobre você. eu esperava você entrar (o que era raro, na época), e ficava feliz quando podíamos conversar.

(a gente nunca realmente chegou a escrever juntos assim, nessa coisa do rpg, e isso é uma das coisas mais engraçadas, pra mim)

em alguns casos,é só disso que eu me lembro: do momento em que conheci alguém importante. queria saber como entramos em todos os assuntos que nos levaram a outros, que nos levaram a falar sobre livros, e filmes, e músicas — e a gente falava tanto sobre músicas, e era sempre tão bom. você me mostrava coisas de que eu gostava, como charlie e tom e amanda palmer, e você me apresentou akata witch, e me mandou a promoção do kobo, e você queria fazer um blog comigo, e a gente conversava quase todo dia pelo chat do facebook. é quase inacreditável, parando para pensar sobre, que eu tenha ficado tanto tempo sem falar com você, quando você e eu somos, a meu ver, tão parecidos. é inquestionável que eu tenha sentido muitas saudades, pela mesma razão.

eu queria ter algo mais profundo para dizer aqui, mas queria dizer que te amo, "só". eu gosto de falar com você e te contar do meu dia e ouvir sobre livros e sobre a plutão e sobre os códigos da cosac, eu gosto de ouvir suas opiniões sobre tudo e saber que eu posso me abrir, mesmo depois de tanto tempo, porque você vai me entender; e que você pode se abrir comigo, também. eu gosto de ficar feliz porque você me mandou mensagens quando eu saio do trabalho, mesmo com tudo uma loucura e eu respondendo pouco; eu gosto do quanto eu fiquei contente por você me aceitar de volta. eu gosto de tantas coisas relacionadas a você, porque — eu não sei bem explicar, mas é algo como: você é uma pessoa maravilhosa. você é gentil e engraçado e você abre seu coração e você fala das coisas que você gosta e você tem sonhos e medos mas você vai atrás dos seus sonhos apesar dos medos.

eu ainda me sinto da mesma maneira que me senti quando você me apresentou tom milsom e eu senti que aquilo me representava de uma maneira absurda, eu ainda me sinto da mesma maneira que me senti quando falávamos sobre regina spektor.

(meu coração poderia explodir de felicidade e amor, eu juro)

eu amo muito você, e desculpa a demora. feliz aniversário, dré.

14.6.18

lá costumava ser uma pizzaria. às vezes, eu passo na frente e penso em como era lá dentro; as lembranças de criança me fazem pensar num palco (era mais algo como um tablado) onde ficavam vários brinquedos e jogos. eu me lembro de jogar mico, aquele jogo de cartas, com outras crianças; um menino muito alto e magro, um menino muito gordo. eu me lembro da pizza que tinha muito queijo mas não tanta calabresa (eu só comia calabresa, naquela época), e lembro que tinha muita cebola. tinha também um — o que é aquilo, um trem? um submarino? tinha algo do outro lado, um algo em que dava para se sentar e fingir que era um trem-ônibus-submarino em missão: um monte de ferro torcido e pintado de cores berrantes para chamar a atenção das crianças. eu me lembro de ir no colégio joão xxiii e ver esse mesmo trem-ônibus-submarino lá,e me perguntar se era o daquela pizzaria que já não existia mais, ou se era da mesma pessoa que tinha feito; o primeiro fazia mais sentido. eu me lembro de sentar e tentar me lembrar de como eu me sentia quando era criança e ia àquela pizzaria, de como era bom, de como era simples fazer amizade com outras crianças quando se brinca, mesmo que elas fossem totais desconhecidas. hoje, esse lugar é um salão de cabeleireiros — talvez um spa, não tenho muita certeza —, mas quando passo pela porta sempre tento me lembrar de como era. quando foi que fechou? quando foi que eu parei de ir lá com a minha família? eram lembranças boas.

ali, um pouco mais longe, era um restaurante. eu não me lembro se servia algum tipo específico de comida (talvez também fosse uma pizzaria? tantos lugares eram pizzarias, até algum tempo atrás), mas me lembro que fui lá com meus pais e os pais daquela menina, a que mentiu pra mim e disse que o sobrenome era potter... ana? carolina? ana carolina? acho que era carol. ela e o irmão dela (ou era primo?), e o lugar tinha aquele jeito de lata de sardinha, o teto meio baixo, um monte de mesas enfiadas e pouco espaço para se mexer. eu me lembro de ter ficado conversando na porta com os dois, que eram da minha idade — carol fazia inglês comigo, e os pais dela trabalhavam com meu pai, se não me engano —, mas não me lembro de muita coisa lá dentro; hoje passei por lá, e agora é um espaço de pilates. eu tento espiar e ver se ainda é o mesmo espaço apertado, de teto baixo, ou se era só coisa da minha imaginação (acho que não era), e se alguém mais se lembra de que lá foi um restaurante, uma vez. se alguém passa por lá e tem lembranças, como eu tenho a desse dia, só desse. não é estranho?

logo acolá é onde morava meu amigo. era perto da minha casa, e das poucas vezes que eu fui lá, eu gostei muito. ele morava no alto, era uma quitinete — só aquele espaço enorme que juntava cozinha, quarto, sala e um banheirinho separado —, e ele me fez amá-lo no primeiro momento em que nos falamos. era engraçado, era espontâneo, me chamou pra casa dele logo de cara (onde já se viu?) e me fazia sentir apreciada; éramos parecidos. hoje, quando eu passo por lá, ainda penso nele e olho para cima; era alto. me faz pensar em saltos e vertigem, me faz pensar no que ele pensou depois, em outro lugar que ficava em outra cidade, quando tudo acabou. eu não sei quem mora lá.

virando à direita e seguindo reto, era a minha escola. foi uma das primeiras, de quando eu tinha quatro anos até ter dez-quase-onze. foi onde fiz amizades que achei que iam continuar pelo resto da vida (ou só não pensei muito a respeito, porque a gente não pensa tanto sobre isso quando se é criança), onde aprendi a ler e a amar ler. o pátio era enorme, as crianças do jardim de infância tinham um parquinho com areia (areia!) e uma casa enorme, vazia. eu sonhava muito com aquele parquinho; tinha um espaço, subindo uma escada, que dava em... nada. tinha só mais areia, mas eu ia lá com minha amiga quando tínhamos o recreio, e ela foi minha primeira amiga, lá; eu me lembro dela, o nome era paula, era branquinha com olhos grandes, um nariz grande e cabelo bem escuro, e outra menina brigou comigo no fim do dia com lágrimas nos olhos porque eu tinha roubado a melhor amiga dela. o nome dessa outra menina era ana paula, e eu não queria roubar a amiga de ninguém. na biblioteca da escola havia duas seções: a de livros infantis e a de livros juvenis e de estudo. foi lá que eu li a maioria dos livros que li na infância, foi lá que eu descobri a coleção do cachorrinho samba (da qual eu nunca me esqueci), era lá que eu passava meus recreios quando não estava brincando com alguém. eu não me lembro bem, mas era comum me encontrar lá, assim como era comum brincar com meus colegas e amigos — eu amava a biblioteca. eu alugava fitas cassete (fitas cassete!), eu alugava livros. foi ali que eu vi um exemplar de harry potter pela primeira vez, mas não era da escola, e sim da minha amiga paula, a primeira que eu fiz na escola. foi do outro lado, onde o acesso era por uma rampa, que eu me propus o desafio de andar grudada na parede de um lado até o outro no prédio, passando pelas voltas e ranhuras — acho até que levei alguém comigo nessa doideira, e eu consegui. foi ali, na parte de esportes, do outro lado da rua, que eu fiz amizade na natação com uma menina que era da minha turma, a letícia, mas não tinha tanta amizade com ela em sala de aula; também foi naquela mata, que ficava atrás de uma das quadras, que eu e o carlos, o menino peruano da minha turma com quem eu fiz amizade, achamos um cacho de bananas verdes e escondemos em uma semana para encontrar o mesmo cacho maduro, na outra. foi ali que eu joguei bete com minhas amigas, foi ali que eu fui pra eventos da escola, que eu fiquei com medo de me ferir nos espinhos, que eu nadei num dia de muita chuva em que a piscina estava quentinha. foi ali a noite do pijama, uma das mais legais. foi no outro quarteirão, do lado da minha casa, que eu colhi amoras e vi coelhos e fiz sanduíches para eles com alface e cenoura e couve e um monte de outras coisas. foi ali que eu fiz amizade com os adultos que cuidavam do lugar, que deviam me achar uma criança meio doidinha, aparecendo ali com tanta frequência. hoje eu sei que é tudo diferente por lá, na escola e na parte de esportes — mudaram o lugar onde ficava a biblioteca, mudaram o lugar onde eu escalava na parede com meus pezinhos, mudaram um monte de coisas. mudaram também o parque ecológico onde eu visitava os coelhos e comia amoras: o lugar foi vendido, e agora é um estacionamento e uma parada de veículos de emergência, como ambulâncias. eu penso em como eu ia lá, às vezes, em como eu via o moço que tomava conta, que me conhecia; como era a árvore que ficava no começo, como a horta era bem-cuidada e seguia, parecendo de jogo, ou de filme. eu sinto falta daquela época, e penso: será que valeu a pena transformar aquele lugar num estacionamento? será que alguém ainda se lembra dos alunos, das folhas, dos peixes, dos sapos, dos coelhos, das crianças, das plantas pra pesquisa de escola, das vezes em que eu ia brincar, de quando era o lugar onde eu ficava feliz?